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23/02/2026

O Dono Oculto do Aluguel

Setor da Prefeitura de SP indicou imóvel de R$ 105 mil que levou a despejo de abrigo; 4 dias depois, seu chefe estaria envolvido em negociação para a compra do prédio por R$ 9 milhões

Uma crise de sublocação em um Centro de Acolhida no Ipiranga revela uma cadeia de decisões frágeis e uma diferença de R$ 60 mil mensais em aluguéis. Mas a história vai além: documentos apontam para o envolvimento direto da Coordenadoria de Administração e Finanças (CAF/CEM) da Assistência Social, que não só conhecia o imóvel um ano antes, mas também teria tentado influenciar a versão da história e, após o escândalo, pode ter intermediado a compra do prédio para um parceiro privado.

Por Fórum da Assistência Social – FAS-SP
23 de fevereiro de 2026

Na manhã de 15 de dezembro de 2025, a rotina do Centro de Acolhida Santa Terezinha, na Rua do Manifesto, 940, no bairro do Ipiranga, foi quebrada pela chegada de um oficial de justiça acompanhado de força policial. A ordem era clara: despejo. Para as dezenas de pessoas em situação de vulnerabilidade acolhidas no local e para os trabalhadores da Associação Cultural Nossa Senhora das Graças (ACNSG), que administrava o serviço, foi um choque. A entidade pagava o aluguel em dia. Como poderiam estar sendo despejados?

O que se desenrolou a partir daquele momento foi a revelação de uma complexa e arriscada operação de sublocação, que expôs a fragilidade de um serviço essencial e levantou sérias questões sobre como o dinheiro público da assistência social de São Paulo está sendo gasto. Documentos e e-mails obtidos pelo Fórum da Assistência Social (FAS-SP) mostram que a prefeitura, através da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), aprovou um repasse de R$ 105.800,00 mensais para a ACNSG alugar o imóvel. O contrato, no entanto, não foi feito com os proprietários, mas com uma empresa intermediária, a Vaughan Administradora Ltda. Essa empresa, por sua vez, alugava o imóvel dos verdadeiros donos por cerca de R$ 45.000,00.

Uma diferença de mais de R$ 60 mil por mês que saía dos cofres públicos e ficava no meio do caminho. Mas esta reportagem revela que o caso vai muito além de um simples contrato de aluguel. A história não é mais sobre um aluguel que deu errado. É sobre por que a própria prefeitura, que paga a conta, parece ter montado o cenário para o desastre  e, depois, para o negócio.


O pano de fundo: a irônica economia no fim dos "Hotéis Sociais"

A história começa em agosto de 2025, com a decisão da SMADS de encerrar o formato de "Hotel Social". A ACNSG, que operava dois serviços nesse modelo, foi informada da mudança e optou pelo "reordenamento" do Centro de Acolhida Santa Terezinha para um novo endereço, a fim de manter o serviço funcionando.

O pano de fundo dessa decisão é crucial. A gestão da SMADS, sob a secretária Eliana Gomes, vinha publicamente defendendo o fim dos hotéis sociais sob o argumento de que a modalidade era cara demais e que havia modelos mais baratos e eficientes. A ironia é que, neste caso, a suposta busca por economia levou a um arranjo contratual que, na prática, custou R$ 60 mil a mais por mês aos cofres públicos do que o aluguel original do imóvel. A economia, ao que parece, era seletiva.

É importante lembrar que essa política de fechamento dos hotéis sociais, como é de conhecimento público, foi alvo de forte resistência e acabou sendo barrada por uma decisão da Justiça, estando o mérito da questão atualmente em análise no Tribunal de Justiça de São Paulo. O caso da Rua do Manifesto, portanto, é um retrato de uma política controversa e, como se vê, de consequências financeiras questionáveis.


A cronologia do caso: datas e fatos principais

O "cadastro informal" e a vistoria de um ano antes

Formalmente, a SMADS não mantém um cadastro público de imóveis para locação. Um órgão público que mantivesse tal registro teria que dar publicidade a ele, seja no Diário Oficial ou em seu site, com regras claras de acesso. Isso não existe. No entanto, os fatos sugerem a existência de um mapeamento informal.

Diferente do que seria o procedimento padrão  a organização social procurar um imóvel e apresentá-lo para avaliação , a história do abrigo da Rua do Manifesto começou ao contrário. Os documentos do processo administrativo (SEI 6024.2023/0010991-8) mostram que a Coordenadoria de Administração e Finanças (CAF/CEM) da SMADS já havia realizado uma vistoria no local em 5 de junho de 2024. O relatório, endereçado ao "Senhor(a) Coordenador(a)" da CAF/CEM, já previa a implantação de um Centro de Acolhida e registrava que "o imóvel será locado pela OSC, com repasse por SMADS".

Ou seja: a CAF/CEM não apenas conhecia o imóvel. Ela o vistoriou, catalogou seus problemas e já planejava seu uso como serviço público mais de um ano antes de apresentá-lo à ACNSG. A pergunta inevitável é: se não há um cadastro formal, como a SMADS tinha este e talvez outros imóveis em seu radar? E por que ele ficou guardado no sistema por tanto tempo?

O laudo de R$ 105,8 mil e suas premissas questionáveis

Em 22 de abril de 2025, a CAF/CEM emitiu o Laudo de Avaliação que fixou o "valor de mercado" do aluguel em R$ 105.800,00 mensais. O documento, assinado por um técnico da prefeitura, parte de uma premissa que se revelou falsa: considera a "inexistência de ônus, posse, domínio, hipoteca", quando, na realidade, o imóvel era objeto de uma sublocação irregular. Além disso, os campos de matrícula do imóvel no laudo estão todos em branco.

Agosto de 2025: o imóvel "já aprovado" é apresentado à ACNSG

A ACNSG afirma que, durante as tratativas para o reordenamento, foi informada pela SMADS da existência do imóvel da Rua do Manifesto, 940, descrito como "já vinculado ao sistema da Secretaria" e "previamente avaliado tecnicamente". Segundo a entidade, em 18 de agosto de 2025, houve uma primeira visita técnica ao imóvel com participação da equipe técnica da SMADS, ocasião em que a organização conheceu o espaço e também Jhone Borges de Oliveira, que se apresentou como responsável pelo imóvel e representante da Vaughan Administradora Ltda.

A ACNSG registra que, "considerando tratar-se de imóvel já aprovado tecnicamente (CAF/CEM)", seguiu adiante com o processo. A indicação veio da SMADS. A avaliação veio da SMADS. O intermediário foi apresentado pela SMADS. A organização social confiou na cadeia institucional.

Setembro de 2025: o contrato com a empresa intermediária

Em 1º de setembro de 2025, a ACNSG firmou contrato de locação com a Vaughan Administradora Ltda., no valor deliberado pelas instâncias técnicas: R$ 105.800,00 mensais. Quinze dias depois, em 15 de setembro, Jhone assinou uma declaração na qual se apresentava como "responsável pelo imóvel" e se comprometia a realizar manutenções "designadas como correções de responsabilidade do proprietário".

15 de dezembro de 2025: o "estouro" — cumprimento do mandado de despejo

A ACNSG afirma que só tomou ciência da inadimplência da Vaughan perante os proprietários e da demanda judicial em 15 de dezembro de 2025, quando foi surpreendida pelo cumprimento de mandado judicial de despejo. Naquele mesmo dia, a entidade conseguiu uma autorização excepcional de permanência provisória e formalizou contrato direto com as reais proprietárias, buscando regularizar a situação.


O rastro do dinheiro: R$ 45 mil na origem vs. R$ 105,8 mil no repasse público

O ponto mais sensível do caso é a discrepância de valores. Em e-mail institucional enviado pelo FAS-SP à ACNSG, consta uma síntese que coloca a questão financeira em termos diretos:

"Verificou-se que o imóvel em questão não foi objeto de contrato de locação celebrado diretamente com os legítimos proprietários, tendo sido firmado ajuste com pessoa jurídica intermediária (...) cujo aluguel pactuado entre os legítimos proprietários do imóvel e a referida empresa intermediária girava em torno de R$ 45.000,00 mensais, ao passo que, no âmbito do reordenamento do serviço socioassistencial, foi aprovado repasse público no montante de R$ 105.800,00 mensais a título de locação."

A diferença é de R$ 60.800,00 por mês. Embora a avaliação técnica da CAF/CEM embase o valor de R$ 105,8 mil como "de mercado", a existência de um contrato original por menos da metade do preço levanta questionamentos graves.


O arremate: a trama por trás do aluguel

O que aconteceu depois que o escândalo veio à tona é ainda mais revelador. A reação da cúpula da SMADS, segundo os documentos, parece ter sido a de tentar reescrever os fatos  e, em paralelo, viabilizar um negócio milionário.

A tentativa de fabricar uma nova versão

Quando o FAS-SP começou a fazer perguntas formais, a gestão teria tentado fabricar uma narrativa alternativa. Em 3 de fevereiro de 2026, a supervisora da SMADS, Rosete Pereira Rodrigues, encaminhou um e-mail à presidência da ACNSG com uma "sugestão" de texto. A supervisora escreveu: "A Secretária sugeriu", seguido de "Minha sugestão para as respostas seriam estas".

O texto sugerido orientava a ACNSG a afirmar, por escrito, que:

"a identificação e a escolha do imóvel (...) [se deu] após prospecção no mercado imobiliário", e que "não tendo havido indicação ou imposição por parte da SMADS".

Era uma aparente tentativa de isentar a secretaria de sua responsabilidade na indicação do imóvel. A ACNSG, contudo, não aceitou a sugestão e manteve sua versão original dos fatos, que apontava a participação direta da SMADS desde o início.

O negócio de R$ 9 milhões: 4 dias depois do despejo

O capítulo mais grave desta trama acontece quatro dias após o caos do despejo. Em 19 de dezembro de 2025, José Toledo Marques Neto  identificado no cabeçalho do e-mail como "Coordenador — SMADS/CAF"  encaminha a um destinatário (cujo nome foi parcialmente oculto na imagem obtida) um e-mail que havia recebido de uma advogada . O assunto: "Rua Do Manifesto".

No corpo da mensagem, a advogada escreve:

"Prezado Sr. José Neto, como vai? Conforme conversamos, seguem as matrículas do imóvel (...) Valor real de venda 9.000.000 (nove milhões) a negociar  aceita contraproposta."

Os documentos indicam que o chefe do setor que avaliou o aluguel em R$ 105,8 mil estaria, agora, envolvido em conversas sobre a venda do mesmo prédio. Fontes ouvidas pelo FAS-SP, incluindo pessoas de dentro da própria SMADS, afirmam que o imóvel foi adquirido por Fernando "Espanhol", empresário que já possui diversos outros prédios alugados para a mesma secretaria. A compra foi confirmada também pela organização que opera o serviço no local.

Ao que tudo indica, a SMADS, através de um de seus coordenadores, pode ter atuado de forma a facilitar um negócio imobiliário para um de seus maiores parceiros privados. Após o despejo, a ACNSG firmou contrato emergencial com as proprietárias originais e, posteriormente, com o novo dono. É crucial registrar que esses novos contratos mantiveram o valor de aluguel próximo aos R$ 105 mil mensais, e não os R$ 45 mil da locação original.

Evento
Data
Vistoria técnica da CAF/CEM no imóvel
05/06/2024
Laudo de Avaliação da CAF/CEM (R$ 105,8 mil)
22/04/2025
SMADS apresenta imóvel à ACNSG como "já aprovado"
Agosto de 2025
Ordem de despejo cumprida no abrigo
15/12/2025
Chefe da CAF/CEM recebe e-mail sobre compra do imóvel
19/12/2025
Secretária sugere versão alternativa à ACNSG
03/02/2026

O que o FAS-SP perguntou  e o que a SMADS respondeu

Em 30 de janeiro de 2026, o FAS-SP encaminhou pedido formal de esclarecimentos à supervisão da SMADS. O Fórum perguntou, de forma objetiva, se existia contrato direto com as proprietárias no SEI, se a Administração tinha ciência de sublocação, quais diligências foram feitas para verificar titularidade e legitimidade, e a quem, de fato, foram pagos os aluguéis.

A resposta da SMADS, enviada em 3 de fevereiro de 2026, foi lacônica: informou que adotou "providências administrativas cabíveis para a devida apuração" e que foi publicada a Portaria nº 010/SMADS/2026, instituindo uma Comissão de Apuração Preliminar. Nenhuma das perguntas específicas foi respondida diretamente.

Em 9 de fevereiro de 2026, o FAS-SP formalizou representação ao Ministério Público do Estado de São Paulo, descrevendo a cadeia de fatos e pedindo que o caso seja investigado de forma independente.


As perguntas que a Prefeitura precisa responder

A Comissão de Apuração Preliminar aberta pela SMADS tem um trabalho muito maior do que investigar um contrato de aluguel. As perguntas centrais são estas:

  1. Qual o interesse da CAF/CEM? Por que a Coordenadoria de Administração e Finanças vistoriou o imóvel um ano antes e o indicou, mesmo sem verificar a titularidade e com um laudo baseado em premissas questionáveis?
  2. Qual o papel do coordenador da CAF/CEM? Por que José Toledo Marques Neto, ao que tudo indica, esteve envolvido em conversas para a compra do imóvel por um parceiro privado da secretaria, dias após a crise que seu próprio setor ajudou a criar?
  3. Por que a Secretária teria tentado mudar a história? A aparente tentativa de influenciar a versão da ACNSG foi uma iniciativa isolada ou parte de um esforço para acobertar a responsabilidade da gestão?
  4. Isso é um caso isolado ou uma pista de um padrão? A SMADS estaria usando o dinheiro e a estrutura pública para mapear imóveis, inflar seus valores de aluguel através de laudos e, no fim, facilitar sua compra por empresários parceiros, gerando um ciclo de dependência e lucro?

O caso da Rua do Manifesto, 940, deixou de ser sobre um despejo. Passou a ser sobre o risco de a máquina pública estar sendo usada para beneficiar poucos em detrimento de muitos transformando a assistência social em um balcão de negócios imobiliários.

Nota de Transparência: Este texto se baseia em documentos, e-mails, comunicações formais e apuração jornalística do Fórum da Assistência Social de São Paulo (FAS-SP). As manifestações da SMADS e da ACNSG estão documentadas nos materiais que serviram de fonte para esta reportagem. Todas as partes mencionadas  incluindo a empresa intermediária, seus representantes e demais envolvidos  têm espaço aberto para se manifestar e apresentar sua versão dos fatos, que será publicada com o mesmo destaque.
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