Disputa
acontece no próximo domingo em São Paulo; 1.012 candidatos tentam uma
das 220 vagas disponíveis
Conselheiros são responsáveis
por cuidar dos direitos das crianças; só 2% dos eleitores vão às urnas
Uma
eleição praticamente invisível, onde há quase cinco concorrentes por
vaga e a influência de igrejas, partidos políticos e ONGs. Esse pleito
está previsto para ocorrer no próximo domingo em toda a cidade de São
Paulo.
Na ocasião, serão eleitos os 220 conselheiros tutelares.
Cada um dos 44 conselhos tem cinco membros. Para efeito de comparação,
na última eleição para escolha dos 55 vereadores paulistanos, em 2008, a
relação de candidato por vaga foi de 19,6. Foram 1.077 concorrentes.
A
expectativa dos organizadores é que apenas 2% dos 8,4 milhões de
eleitores participem do pleito. Isso representa cerca de 200 mil
votantes, 50 mil a mais do que na última eleição de conselheiros,
ocorrida há três anos.
Pesquisadores e promotores de Justiça que
atuam na área da proteção da criança e do adolescente consultados pela
Folha atribuem a baixa participação da população na disputa a três
fatores: o voto é facultativo, há pouca divulgação e os cidadãos não
sabem quais são as atribuições dos conselheiros tutelares.
Criado
em 1990 pelo ECA (Estatuto da Criança e Adolescente), o Conselho
Tutelar tem como função defender os direitos de quem tem menos de 18
anos de idade.
São eles que atendem as crianças e os adolescentes
que tiveram seus direitos ameaçados ou violados. O conselho também é
responsável por quem comete algum ato infracional. O eleito pode
disputar apenas uma reeleição. O salário é de R$ 1.416
Dos 1.012
concorrentes a uma vaga, ao menos 22 tem relação com igrejas, partidos e
ONGs. São diretores de associações, militantes partidários, pastores,
pais de santo e padres. Os concorrentes admitem a relação.
"Com o
apoio da associação posso conseguir ajudar as crianças", disse o
músico, pintor e candidato a conselheiro no Campo Limpo (zona sul),
Josenildo Barros.
Ele é vice-presidente de uma associação de
moradores. Se eleito, ele quer ter influência política. "Tenho ideias
muito loucas para implantar na prefeitura."
A coordenadora do
Centro Regional de Atenção aos Maus-Tratos na Infância, Lígia Caravieri,
diz ser notória a participação de instituições. "É normal a pessoa ter
ambição política. Mas não pode usar o conselho para isso."
A
promotora que investiga fraudes no pleito, Luciana Bergamo, diz que a
lei não impede apoios. "O que não pode é usar essas estruturas para
cometer irregularidades."
Candidatos nem sempre estão
preparados
"E quando o seu ECA vem falar com a
gente?"
A pergunta foi feita por um conselheiro tutelar,
recém-eleito para a função que participava de um treinamento ministrado
por uma ONG em Santo André, na região do ABC.
O questionamento
ocorreu depois de ouvir várias vezes da instrutora do curso que o ECA
(Estatuto da Criança e do Adolescente) dizia isso, tratava daquilo.
"Ele
achou que o ECA era mesmo uma pessoa, e não a legislação que trata da
proteção das crianças e adolescentes", afirmou a coordenadora do Centro
Regional de Atenção aos Maus-Tratos na Infância, Lígia Caravieri.
A
dúvida do conselheiro demonstra que parte dos que assumem o cargo não
tem conhecimento pleno de suas funções, dizem pesquisadores ouvidos
pela Folha. Por isso, algumas cidades brasileiras como Niterói, no Rio,
e São Bernardo do Campo (ABC), instituíram provas como uma das etapas
da seleção para novos conselheiros. Só pode concorrer quem tiver
conhecimentos básicos do ECA.
Outras cidades, como Santo André,
capacitam os conselheiros logo após a eleição. Em São Paulo, para
concorrer ao cargo o candidato não precisa conhecer o ECA.
Basta
ter mais de 21 anos de idade, não ter nenhuma condenação judicial
contra si, morar no município e ser referendado por uma entidade
registrada no CMDCA (Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do
Adolescente), entidade responsável por organizar as eleições.
"Sou
a favor da prova para selecionar os candidatos. Estamos trabalhando
para mudar esse ponto da legislação ", diz o presidente do CMDCA, João
Santo Carcan.
AFONSO
BENITES
FOLHA DE S. PAULO
ANÁLISE
Conselho é
prática em construção, com mais acertos que erros
PAULO
AFONSO GARRIDO DE PAULA
ESPECIAL PARA A FOLHA
O
ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) é uma decorrência da
Constituição de 1988 e a previsão nele de que cada município deve ter,
no mínimo, um Conselho Tutelar tem sua raiz na democracia participativa,
promessa constitucional de que o povo deve também participar da gestão
de assuntos públicos do cotidiano.
O conselho materializa parte
deste objetivo através da sua instituição como órgão local encarregado
de zelar pelos direitos da criança e do adolescente. Composto por
cinco membros, escolhidos pela comunidade local para mandato de três
anos, nasceu com uma natureza comunitária que o torna próximo da
população atendida, principal razão da sua força e motivo básico de sua
existência.
A ideia fundamental foi da imediatidade, resposta
célere derivada da proximidade física e da vivência análoga, capaz de
produzir empatia pela situação alheia e disposição em buscar a melhor
solução.
Como em toda prática democrática, os membros eleitos,
além de eventualmente representarem segmentos legítimos da população,
não raras vezes são motivados por interesses diversos daqueles que
determinaram a sua criação.
Antecâmara da vereança, obtenção de
prestígio pessoal, visualização de ganhos ilícitos, desfrute de
eventuais benesses de poder, defesa de interesses partidários, de
igrejas ou mesmos seitas frequentemente aparecem nas críticas à sua
composição. Todavia, são mazelas tópicas a merecer repressão
individualizada.
É ele o órgão que mais contribui para as
denúncias de exploração sexual de crianças e adolescentes, que mais faz
encaminhamentos de famílias para programas sociais e que mais escuta as
falas das crianças das classes populares. Representa a alma do ECA na
exata medida de que os excluídos da cidadania precisam de uma primeira
atenção e de uma primeira voz.
É uma prática em construção, de
muitos mais acertos do que erros, a merecer mais investimentos,
capacitação e, acima de tudo, respeito.
PAULO AFONSO
GARRIDO DE PAULA , 55 , é procurador de Justiça em SP e coautor do
anteprojeto que originou o ECA
AFONSO
BENITES
FOLHA DE S. PAULO

Um comentário
Muito preocupante essa constatação...
ResponderExcluirComo é possível que somente 2% dos eleitores de são Paulo se preocupem com a defesa e a proteção de nossas crianças e adolescentes?