No primeiro semestre de 2011, 537
idosos vítimas de violência foram atendidos no Grande Conselho Municipal
do Idoso, órgão da Prefeitura de São Paulo que cuida da terceira idade.
Sessenta deles estavam em situação de abandono e 178 foram vítimas de
'múltiplas violências', classificação para quando são praticados dois ou
mais tipos de agressão e engloba maus tratos, abandono, violência
psicológica e negligência. Segundo estatísticas do Conselho, 75% das
vítimas eram mulheres.
Em Guarulhos, o Centro de Referência
Especializado da Assistência Social (Creas) realizou 251 atendimentos a
idosos em situação de vulnerabilidade entre janeiro e agosto. É no
município da Grande São Paulo que Therezinha Ferreira foi parar após
passar mal em um ônibus, que ia do Brás, na região central da capital
paulista, para Guarulhos. Hoje, ela vive no Lar Madre Regina. Porém,
antes de chegar ao asilo, ficou nove meses no Hospital Geral de
Guarulhos (HGG). Apesar de não precisar da internação, como já tem
sinais de esclerose, ela não pode deixar o hospital sozinha e ninguém
apareceu para buscá-la.
Dados da Fundação Sistema Estadual de
Análise de Dados (Seade) apontam que 4.817.074 idosos vivem em São
Paulo. Em todo o Estado existem 1.765 locais que cuidam da 3ª idade,
segundo a Secretaria de Desenvolvimento Social. Entretanto, não existem
números oficiais de quantos idosos estão em situação de abandonado no
Estado, como Therezinha. 'Não é o primeiro caso desse tipo que temos
conhecimento, mas também não é algo que aconteça diariamente', diz o
promotor Zenon Lotufo, que atua em Guarulhos.
O Estatuto do Idoso
(Lei 10.741/2003) estipula como crime abandonar idoso em hospitais,
casas de saúde ou entidades de longa permanência e prevê detenção de
seis meses a três anos e multa. 'É difícil responsabilizar parentes que
abandonam idosos. E a pena é muito branda, pois é um crime de baixo
potencial ofensivo', afirma Lotufo.
Abandono. No dia 16 de outubro
de 2010, Therezinha passou mal dentro de um ônibus. Encaminhada pela
Polícia Militar para a policlínica Maria Dirce, ela foi transferida para
o HGG, sem documentos. Seis dias após a internação, Therezinha recebeu
alta hospitalar, mas só saiu de lá quando a Prefeitura de Guarulhos
conseguiu uma vaga no Lar Madre Regina.
A única bagagem que tinha
ao chegar ao asilo era uma bolsa com uma toalha, dentro de uma caixinha
em forma de torta, e um tubo de creme dental - presentes que, como
conta, ganhou 'das moças do hospital' e faz questão de deixar intactos
ainda na embalagem.
'Não sabemos a história dela', afirma Ana Rosa
Escribano Alarcon, assistente social que trabalha no asilo desde sua
fundação, em 1997. 'Mas, se ela tem família, não fizeram nada para
procurá-la.'
Therezinha conta que gosta do asilo, mas não vê a
hora de voltar para casa. 'Moro em Guaianazes. Aqui é bom, mas quero
voltar pra lá', diz. Entretanto, a rua em que ela acredita que morava
não existe. Ela também diz que tem dois filhos: Benedito e João
Ferreira. 'São nomes muito comuns, não conseguimos confirmar se
realmente existem', explica Ana Rosa.
Enquanto não consegue achar
sua família ou um vínculo com o passado, Therezinha se preocupa com
questões práticas de seu cotidiano. Quer saber quando terá de volta seus
óculos, que quebraram e foram enviados para o conserto, e quando seu
cabelo será tingido cabelo. 'Não dá pra ficar assim, está muito feio',
reclama.
Sozinhos. Atualmente, 13 dos 64 idosos do Lar Madre
Regina não têm contato com a família. 'Cada história é única. Uns não
querem contato, outros ficam sozinhos após a morte dos parentes e vem
para cá', conta Ana Rosa. Nove idosos abandonados devem ganhar um
curador em breve, pois já apresentam problemas que lhes tiram a
capacidade de tomar decisões sozinhos e, principalmente, lidar com
dinheiro. O asilo já procurou o Ministério Público para regularizar a
situação deles.
A procura por vagas na instituição, que é mantida
pela Associação Congregação de Santa Catarina, cresce a cada ano. Em
2010, foram mais de 800 pedidos de vaga, apenas 10 foram atendidos. 'Não
temos condições de abrigar todos, quando eles têm família, conversamos e
tentamos mostrar outras opções', diz a assistente social.
TRÊS
PERGUNTAS PARA ZENON LOTUFO - promotor de justiça
Como são
escolhidos curadores para os idosos abandonados que necessitam?
Quando
esses casos chegam ao conhecimento formal do Ministério Público,
promovemos uma ação de interdição pedindo que seja nomeado um curador.
Pode ser uma pessoa que cuide do idoso no asilo, mas a instituição não,
por ser uma pessoa jurídica. Qualquer pessoa que se disponha pode ser o
curador. Senão houve ninguém, o juiz irá nomear alguém que cumpra essa
função.
O Estatuto do Idoso prevê sanções para quem abandona
idosos em hospitais ou deixa de prestar assistência. Na prática isso
acontece?
Como promotor da área cível, participo de fiscalizações
nesses abrigos e constando uma situação concreta desse tipo de abandono
podemos até, eventualmente, orientar que seja feito um inquérito
policial para tentar responsabilizar esses parentes. É que,
invariavelmente, esses parentes têm um bom álibi, dizem que trabalham o
dia inteiro, não podem fazer nada e se propõem a fazer visitas mensais. É
difícil responsabilizá-los. E a pena também, na verdade, é muito
branda, é um crime de baixo potencial ofensivo, não dá prisão. No máximo
a pessoa é compelida a entregar cestas básicas, pagar uma multa. A
responsabilização não é muito efetiva também.
O Estatuto do Idoso
precisa ser mais difundido?
Sim. Principalmente entre os próprios
idosos. Muitos estão em uma situação em que poderiam obter algum tipo de
melhoria prevista legalmente, mas se conformam com essa situação que
diminui um pouco os direitos deles.
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