Censo revela que número de centros
de assistência
social aumentou nos últimos três anos, mas ainda é preciso qualificar o
atendimento e garantir o funcionamento do controle social
Assim como o Sistema Único de Saúde (SUS), o
Sistema Único de Assistência Social (Suas) também já virou lei.
Agora, o
desafio é fazer com que todas as pessoas sejam atendidas com qualidade.
Na
semana passada, o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à fome
(MDS)
divulgou o censo Suas 2010,
que mostra, por
exemplo, que houve um aumento de 77% no número de Centros de Referência
de
Assistência Social (Cras) nos municípios com até 20 mil habitantes.
No
entanto,
ainda há 15% dos municípios sem esses espaços, que, junto com os Centros
de
Referência Especializados de Assistência Social (Creas) são os
principais
locais de atendimento em assistência social. Os dados revelam ainda que
há
outros grandes desafios, como fortalecer os conselhos, que são
responsáveis por
fiscalizar o bom andamento do Suas, e garantir a realização de concursos
públicos para os trabalhadores.
De acordo com o censo, os serviços de assistência
social cresceram mais nas cidades pequenas, enquanto nas metrópoles
houve um
incremento de 33% no número de Cras. Os Creas tiveram um aumento médio
de 33%,
entretanto, com forte desigualdade entre os estados. Nos estados de
Minas
Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul, que concentram o maior número de
cidades, 80% dos municípios ainda não possuem o serviço. Já em outros 14
estados, os Creas estão presentes em cerca de 30% dos municípios.
Para o presidente do Conselho Nacional de
Assistência Social (Cnas), Carlos Eduardo Ferrari, houve um esforço
inicial de
expandir o Suas e é necessário agora melhorar o atendimento. "O primeiro
passo que o sistema único deu foi ganhar capilaridade. Agora, é urgente
qualificar a rede, não dá mais para adiar esse processo, até porque as
expectativas dos usuários da política são muito grandes", opina. A
secretária nacional de assistência social, Denise Colin, afirma que os
dados do
censo são importantes para guiar os próximos passos da política de
assistência.
Ela explica quais são as prioridades a partir dos novos indicadores. "A
política de assistência social terá que atingir a universalidade na
totalidade
dos municípios em relação à proteção social básica. Na proteção social
especial, atender também aquelas regiões que tem reincidência na
violação de
direitos e depois dar conta da cobertura, que é atingir a proporção mais
adequada entre a demanda e a oferta dos serviços. Além disso, capacitar
continuamente as equipes para atuarem e poderem adotar sistemas
informatizados
homogêneos e metodologias de acompanhamento para essas famílias".
Reportagem realizada
pela
EPSJV/Fiocruz em junho ouviu assistentes sociais que
afirmaram que a
qualidade dos serviços em assistência social não acompanha muitas vezes a
expansão da rede. Há casos de Cras e Creas nos quais os pacientes não
são
atendidos em condições adequadas, como um ambiente que proporciona o
sigilo,
por exemplo, e inclusive, unidades que não dispõem sequer de telefone.
Carlos
Ferrari diz que de fato há muitos problemas estruturais na rede de
atendimento
do Suas. O presidente do Cnas cita, entre as melhorias necessárias, a
adequação
dos espaços de atendimento de forma que sejam acessíveis a todas as
pessoas.
Ele aposta que essas melhorias vêm acontecendo à medida que os gestores
municipais e estaduais também entendem a importância do sistema. "À
medida
que o gestor passa a se apropriar mais do sistema, também ele está mais
habilitado para fazer essa qualificação e se utilizar melhor dos
recursos
dentro desse modelo descentralizado e participativo que é o Suas.
Precisamos
avançar no entendimento do papel dos estados, com os municípios
entendendo que
a gestão exige compreensão técnica, e não simplesmente uma apropriação
política", pontua. Carlos afirma que tem sido exitosa a luta contra a
percepção vigente até pouco tempo da assistência social como objeto de
caridade
das primeiras damas e não como uma política pública. "O primeiro damismo
acabou dando essa faceta perversa para a assistência social durante
décadas e
temos vencido isso de forma muito significativa também".
Trabalhadores
Segundo Carlos Ferrari, outro desafio é garantir a
realização de mais concursos públicos para admitir trabalhadores no
Suas, já
que há muitos profissionais contratados de forma precária. Segundo o
censo, dos
220 mil trabalhadores da assistência social, 107 mil (49%) são
comissionados ou
possuem "outros vínculos de trabalhos". Entre os 113 mil (51%)
restantes,
85 mil (35%) são estatutários (concursados) e 28 mil (13%) são
celetistas
(contratos via CLT). "O ideal é avançarmos na abertura de concursos
públicos, na constituição de vínculos empregatícios que garantam
estabilidade,
porque a principal tecnologia do Suas são os trabalhadores. Se não há
vínculos
profissionais qualitativos, que garantam a permanência desses
trabalhadores
acontece sempre muita alternância e, logo, a qualidade da oferta de
serviço
fica muito comprometida".
Denise Colin e Carlos Ferrari concordam que, com a
criação da lei do Suas, ficará mais fácil realizar concursos públicos,
já que
os municípios também poderão utilizar o fundo municipal para pagamento
de mão
de obra. "Entretanto, isso passa também por uma leitura do município da
importância da política de assistência social", ressalta Carlos.
Controle social
Os conselhos de assistência social, tanto nos
municípios, quanto nos estados e na esfera federal, devem cumprir o
papel de
acompanhar, fiscalizar e exigir o bom funcionamento do SUAS. No entanto,
pelos
dados do censo, os conselhos ainda encontram muitas dificuldades de
funcionamento, como a não nomeação formal de um secretário executivo e a
falta
de funcionários para a realização de atividades administrativas. Pelo
censo,
24% dos conselhos dos municípios com até cem mil habitantes não possuem
sequer
um funcionário, e em municípios de grande porte, com população entre cem
e 90
mil habitantes, mais da metade dos conselhos tem um ou nenhum
funcionário. A
situação de falta de estrutura se reflete também na efetividade dos
conselhos.
Os dados mostram que apenas 10% dos conselhos municipais recebem
denuncias e
apenas 24% promovem ações de mobilização social. "O sistema único foi
concebido e pensado a partir de três perspectivas: a gestão, a oferta
dos
serviços através dos equipamentos estatais e não estatais, e o controle
social.
Não existe o sistema se não tiver o conselho para fazer o acompanhamento
e
aprovação das contas, a deliberação dos rumos da política. Logo, ele é
parte
estruturante. O Censo mostra que em praticamente 100% dos municípios há
conselhos, mas ter não é o mesmo que funcionar de fato, e se lermos o
censo
mais a fundo, veremos que há muita debilidade ainda", analisa Carlos
Ferrari.
Apesar de reconhecer os avanços já alcançados, o conselheiro
enumera que ainda há outros problemas nos conselhos, como o
desequilíbrio entre
o número de representantes do governo e da sociedade civil e também
entre os
seguimentos que compõem a sociedade civil - usuários, trabalhadores e
entidades. Carlos considera fundamental que haja modificações nas leis
de
criação dos conselhos. "Ainda há leis que não asseguram a paridade,
garantem cadeira cativa para segmentos específicos da comunidade local, e
isso
acaba impedindo a alternância. Ainda há inclusive leis que impedem a
participação desses três segmentos da sociedade civil de forma
equilibrada -
trabalhadores, usuários e entidades", destaca.
Recursos
Dentro da Lei Orçamentária Anual prevista para
2011, a assistência social ficará com apenas 2,13% do orçamento. Desse
montante, o Cnas explica que mais de 90% é destinado a pagamento de
benefícios,
portanto, o que sobra para os serviços de assistência, basicamente os
prestados
nos Cras e Creas é pouco. Além desse problema, os dados do censo revelam
ainda
que muitos municípios (10,8%) não possuem fundos de assistência social
que se
configuram como unidades orçamentárias. A maior parte deles está na
região
norte, cujo percentual de municípios nessa situação atinge 23%. Isso
dificulta
que os municípios recebam recursos da União e dos estados, o que pode
acarretar
problemas na execução da política de assistência social. "Os municípios
obrigatoriamente tem que ter fundos com recursos próprios e se
constituírem
como unidade orçamentária. Percebemos com o censo que nem todos os
municípios
fizearm isso, apesar de todos já terem criado os fundos e aportarem
recursos
próprios. Agora são necessários esses outros aprimoramentos", explica
Denise.
Carlos complementa que para executarem a política
de assistência social, os municípios precisam ter o que foi apelidado de
CPF,
que é o conselho, o plano municipal de ação e o fundo municipal. "O que
acontece é que muitos municípios não criam o fundo como unidade
orçamentária,
com CNPJ próprio, coordenador de despesas, e criam os tais fundos de
solidariedade, que são fundos não vinculados à política, que acabam não
tendo a
gestão alinhada com a política e isso cria uma grande confusão na
operacionalização desses recursos", diz.
Outros dados do censo Suas 2010 mostram que apenas
11 estados possuem secretarias exclusivas de assistência social,
enquanto 16
funcionam em conjunto ou subordinadas a outras políticas setoriais. Já
entre os
municípios, 72,6% têm secretarias de assistência social exclusivas. O
cofinanciamento dos serviços de assistência social entre estados e
municípios
também ainda precisa caminhar. Na proteção básica, 21 estados já
participam do
financiamento, mas os serviços de proteção social especial de média e
alta complexidade
recebem recursos de apenas 12 e 16 estados, respectivamente. "A
responsabilidade pública pela política de assistência social é recente.
Embora
ela esteja prevista na Constituição e tenha uma lei orgânica prevendo
essa
responsabilidade, foi com a implantação do Suas que isso ficou mais
evidente.
Agora, com essas atribuições mais próprias do poder público, os estados e
municípios estão sentindo a necessidade de ter uma estrutura mais
robusta e que
requer uma atenção mais direta. A maioria dos municípios não tinha
secretaria
específica de assistência social e agora já tem", comenta Denise.
Para Carlos, os desafios da assistência social
podem ser resumidos em três campos: a gestão, a oferta de serviços e o
controle
social. O conselheiro aposta da mobilização para garantir mais recursos
para o
SUAS. "Precisamos avançar nesses três aspectos considerando que o
sistema
único é jovem e que, obviamente, só vamos avançar nisso se tivermos
orçamento.
Então, é importante mobilização política nas três esferas de governo,
para que
as Leis Orçamentárias Anuais contemplem a assistência social atendendo
as
demandas da forma como a legislação prevê. Nós precisamos avançar muito
no
orçamento da oferta de serviços para que tenhamos uma rede de proteção
social
de fato, que traga as famílias para a centralidade e garanta o
cumprimento de
todas as demandas que identificamos no território".
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